Vinícius Las Casas
G1 - Globo.com
seção brasileiros no exterior
Nem todos os jornalistas estrangeiros saíram do Irã. Alguns continuam no país, trabalhando na clandestinidade. Eles andam incógnitos pelas ruas e conversam com as pessoas à revelia das autoridades. O que segue é um testemunho dos acontecimentos de Teerã nos últimos dias feito com exclusividade para a sessão Brasileiros no Exterior, do G1, por um jornalista brasileiro familiarizado com a cultura e os hábitos do país persa. Por razões de segurança, seu texto não está assinado.
Os iranianos são pessoas muito sociáveis. O entusiasmo nas ruas de Teerã dias antes das eleições demonstrava isso. Todo mundo estava discutindo os candidatos. Frente a frente, havia entre opositores um clima totalmente pacífico e alegre. Parecia um sonho democrático num país acostumado a viver duas vidas – a de casa e a da rua, onde o comportamento e o que se fala têm um componente de autocensura. As noites eram ainda mais espetaculares. Na parte norte da cidade, onde vive a juventude mais influente, os carros viraram discotecas, e eles dançavam dentro do carro. Jovens das zonas Oeste e Leste vinham compartilhar as celebrações. Nas vésperas das eleições, viam-se jovens ousando dançar na rua (o que é proibido pelas rígidas regras de condutas iranianas) e até, suprema ousadia, com pessoas do sexo oposto. Testemunhei algumas dessas danças, logo reprimidas pela polícia. A maioria dos celebrantes eram seguidores de
Mir Hossein Mousavi, que foi primeiro-ministro durante a guerra contra o Iraque (1980-1988). Muita gente ainda o admira, por ter mantido a inflação sob controle durante a guerra.
Na noite das eleições, estávamos todos de olhos grudados na televisão. Perto da meia-noite, os primeiros resultados davam 63% dos votos para o presidente,
Mahmoud Ahmadinejad. A partir de então, os números não mudaram. Começava o choque. E essa seria a expressão das pessoas no dia seguinte, perto do Ministério do Interior e da Universidade de Teerã. Mais que os primeiros distúrbios, chamava a atenção a expressão de tristeza e depressão das pessoas. Perguntei a uma jovem o que estava acontecendo. Ela disse: “Estamos fartos! O que achavam, que íamos ficar quietos ante a fraude?”.
Jovens e homens começaram a queimar latas de lixo para bloquear o acesso da polícia, que corria atrás das pessoas em motocicleta. Um dos policiais dirigia, o outro, com cassetete, batia indiscriminadamente. Cheguei a ver milicianos, conhecidos como Basij, arrebentar portas de casas em busca de manifestantes. Outra coisa chamava a atenção nos protestos: a grande quantidade de mulheres na rua, de classe média e de meia-idade, gritando e animando os outros.
No último domingo, à noite, uma amiga telefonou de Shiraz, uma cidade no sul do Irã. Ao fundo, pude ouvir pessoas que gritavam nos telhados: “Allah Akbar!” (Deus é grande!). A mesma coisa acontecia na revolução de 1979. Na verdade, tudo parece ser a repetição do começo da história de 1979. Por essa razão, há muito medo na rua; ninguém quer mais sangue no país. Ainda assim, com o aumento da repressão, as pessoas vão tomando mais coragem e parecem dispostas a correr cada vez mais riscos. No mesmo dia, as imagens da repressão contra os manifestantes começaram a aparecer na internet. Embora muitas páginas da web sejam censuradas, o uso de filtros Proxy possibilita o acesso. Pouco antes das eleições, o site de relacionamento Facebook foi muito usado para difundir ideais políticos entre a população. No domingo, no entanto, a rede de internet estava a menos da metade da velocidade normal e o Facebook fora do ar. Mesmo assim os internautas iranianos já começaram a postar as imagens duras da repressão, em que a polícia investe contra os manifestantes. As cenas causam pânico e fúria. Os paramilitares Basij, uma força de jovens composta de filhos dos soldados que lutaram na guerra contra o Iraque, tentaram entrar à força na Universidade de Teerã, no domingo à tarde. Eles podem portar armas e prender gente. Homens armados entraram até mesmo nos dormitórios femininos. Vários estudantes foram presos. Testemunhas afirmam que alguns morreram.
Na segunda-feira, mais de 1 milhão de pessoas atravessaram a cidade de Teerã em apoio a Mousavi. Subo no telhado de um prédio e, de um lado ao outro, posso ver pessoas até o horizonte. Durante toda a manifestação, há uma mistura entre fúria e alegria. Durante toda a manifestação, vemos centenas de milhares de pessoas tirando fotos, fazendo vídeos e áudios com seu celular. O esforço civil em documentar os acontecimentos não tem precedentes na história do Irã. Mas aqueles que filmam ou fotografam se esforçam para não revelar a identidade dos manifestantes.
Ontem, terça-feira, o Ministério de Informação anuncia o fim das eleições e manda os jornalistas estrangeiros partir. Aumenta a tensão nas ruas. Teme-se que o Estado ataque os manifestantes sem testemunhas. A tecnologia entra em jogo. Depois do bloqueio ao YouTube e ao Facebook, os internautas fazem uso do Twitter como sua melhor arma de informação. O serviço de SMS nos celulares já vinha desabilitado desde a sexta-feira, dia da eleição. Como o Twitter era pouco conhecido pelo governo, converteu-se na melhor arma de comunicação. Em pouco tempo, porém, ele também seria bloqueado.
Hoje, quarta-feira, houve mais uma marcha. Novamente são centenas de milhares, mas desta vez o impressionante não são só os números. O protesto acontece em absoluto silêncio. Uma tranquilidade, inédita até então, envolve a
manifestação. Aqui e ali alguém grita alguma coisa, mas é rapidamente silenciado. São esses gritos que refletem o desejo enorme de se expressar abertamente no país. Dessa vez, não se vê nenhum policial na rua.
Na volta, pego carona com um casal. Eles estão casados há três anos, mas moram com os pais porque não têm dinheiro para o aluguel. Quando pergunto em quem votaram, os dois riem: “Não votamos”. Eu não acredito. Eles me respondem: “Não interessa quem ganhe, o próximo também vai prometer tudo e não muda nada. Somos prisioneiros de um sistema ideológico”.
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